Fazendo Amigos.

Publicado em 05/08/2011 por Arthur Estevez

Pra quem não conhece Antonio Paulo Faria, ele é uma “persona” caricata do montanhismo Carioca.
De personalidade única e que muitas vezes bate com as características de um velho rabugento e outras de um jovem ansioso pela vida.
Antonio Paulo é escritor, tem diversas literaturas cientificas importantes para a academia, mas certamente essas não são as que mais importa pra gente.

Banff 2005

Você vai entender após ler essas linhas escritas por ele que vem a seguir:

Vá Sozinho

“Quando era adolescente, queria viajar para vários lugares, mas não ia por falta de companhia… Amigos duros. Pensei – “Companhia para que? Vou sozinho!” – Minha primeira experiência “solo” em montanha foi nas Agulhas Negras (PNI), em 1981. Eu ainda não escalava. Gostei e não parei mais. Estou dizendo isto porque tenho muitos amigos(as) que conhecem muito pouco por não viajarem sozinhos, ou por medo ou por preguiça. Mas a vida passa. Hoje, fazendo as contas, considerando apenas escalada/montanhismo, passei por 16 países, mais de 300 zonas de escalada (incluindo o Brasil) e aproximadamente 1200 vias diferentes. Com isso desenvolvi algumas habilidades, talvez a mais importante foram técnicas de ser bem vindo em qualquer lugar e arrumar amigos de forma rápida para escalar. Não nego que uma boa garrafa de whisky tenha ajudado em muitas ocasiões nos acampamentos, mas cerveja também serviu. Aqui vão alguns exemplos de como conseguir se introsar com outros escaladores:

a) Ficar quientinho na base da falésia, olhar de forma triste para a via e fazer cara de cachorrinho faminto;

b) Ser puxa-saco – Mesmo que o escalador seja péssimo e a escalada fácil, diga para ele(a): “Bom trabalho, mandou bem!! Esta via parece ser bem legal!”;

c) Pose de mestre gente boa ou fodão – Se os escaladores forem muito medíocres, vão querer aprender alguma coisa… Hahaha;

d) Bancar o falastrão ou palhaço – Muitas vezes isso gera simpatia… Quando na medida certa! Caso contrário, vai fazer papel de babaca e queimar o filme dos brasileiros.

Enfim, existem muitas outras formas de abordagem, mas se for com mulheres, além disso tudo, ainda temos que jogar um certo charme! Todavia, isso funciona muito bem para áreas de escalada esportiva populares, para montanhas e escaladas complexas e difíceis, a situação fica mais complicada. Em lugares populares como exemplo o Camp 4 do Yosemite, Joshua Tree, Squamish, Red Rocks, Todra Gorge, acampamentos em Chamonix, uma semana pode ser suficiente para você virar “local”. Cada dia tinha uma ou mais pessoas diferentes para escalar. Na base de montanhas famosas isso também ocorre, mas a situação pode ser diferente devido a exigência de infraestrutura mais complexa nas escaladas.

Escalei com centenas de pessoas oriundas de 47 nacionalidades distintas. Alguns não falavam inglês, espanhol ou português, mas para escalar e fazer amor podemos nos comunicar de outras formas, não é mesmo? A linguagem dos gestos é verdadeiramente universal… Em geral os escaladores são cultos, falam inglês ou espanhol. Tive problemas apenas em Singapura e Marrocos. Aliás, neste pais africano um problemão com o carro que aluguei: como eu não falava árabe, o idiota do funcionário de um posto, no lugar de gasolina, encheu o tanque de diesel. Isso em pleno Saara, no meio do nada em um frio de zero grau! Entretanto, até no Brasil conheço escaladores que não falam nenhuma língua decentemente, nem a materna, que foi substituída por gírias, palavrões e resmungos excessivos que não entendo. O único escalador português que conheci, na Alemanha, eu não entendia nada que ele falava. Tentei inglês, mas o dele soava como russo!

Sinceramente, em viajens internacionais prefiro viajar sozinho. Não preciso falar português, conheço verdadeiramente outras culturas e não brigo. Liberdade total. Ter que aturar pessoas chatas por muito tempo numa viagem… ou descobrir que ela é chata lá… Ou seja, a cada viajem volto para casa com muitos contatos e amigos diferentes, daqueles que vemos uma vez na vida. Mas vale à pena. Pensei que eu era um cara muito viajado, até conhecer o Kawamura (PR) e o Igor Epoff (SP)… Este último já pisou em 42 países, fui esbarrar com ele numa zona de escalada na Colômbia! Juliana Petters e a Mariana Candeia são algumas das escaladoras que se encaixam neste perfil e que estou lembrando.

Enfim, esta é uma das grandes vantagens de ser escalador, podemos ir à maioria dos países e fazer amigos com certa facilidade, entretanto, ajuda muito se você escalar bem! Viajar milhares de quilômetros para ficar pedindo corda de cima e passar veneno… Se não falar pelo menos inglês, as chances também ficam reduzidíssimas… Vai sozinho e provavelmente vai ficar sozinho!!

O Cerro Catedral (Frey) em Bariloche não conta. A língua “brasileira” é quase dominante. Vejo gente que mal começou a escalar indo para lá. Agora, se nem em Bariloche você consegue se enturmar, pode ser porque:

a) Você é muito chato(a);

b) Não escala absolutamente nada;

c) Não consegue se comunicar nem em português, imagine em portunhol…;

d) Talvez seja hora de tomar banho.

e) Pode ser também uma combinação dessas possibilidades, entre outras.”

Antonio Paulo Faria

Esse é apenas um de seus inúmeros textos.
Vou tentar encontrar outros e colocar aqui no site.

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